Acompanhe nossas redes sociais

Radiografia da Capilaridade dos Partidos no Brasil


O Brasil tem experimentado nos últimos anos uma forte polarização ideológica de seu espectro político, o que reflete, necessariamente, na formulação dos arranjos eleitorais e partidários em todo o país. Na esteira do último resultado eleitoral realizado a nível nacional em 2018, espera-se que o pleito de 2020 continue a espelhar o fenômeno do forte antagonismo político.


Apesar dessa ser uma expectativa bastante plausível, devemos nos atentar a uma característica que distingue de maneira muito significativa a forma como são estruturadas as modalidades de eleição nacional e a municipal, que de forma básica pode se traduzir da seguinte forma: o pleito nacional possui um maior apelo ideológico, a eleição municipal, entretanto, está mais vinculada a uma perspectiva pragmática. Essa distinção se deve a uma característica fundamental, o fato de que o prefeito ou os candidatos a uma municipalidade estão em maior contato com o dia-a-dia da comunidade/cidade. Nesse sentido, o conteúdo de forte oposição ideológica vigente, apesar de constituir uma importante variável para conjecturar o que se pode esperar das eleições municipais deste ano, não deve estar destacada de uma compreensão de como os candidatos municipais engajam suas bases e eleitorado cotidianamente.


Essa distinção inicial é importante não apenas para demarcar uma melhor abordagem quanto à previsibilidade dos fenômenos políticos que dominarão o pleito de 2020, mas também nos serve como elemento para notabilizar um efeito lateral muito interessante da lógica eleitoral, no caso, a ideia de que os prefeitos e vereadores são importantes players para mobilização política. A ideia básica é a de esses acabam se constituindo enquanto cabos eleitorais capazes de engajar de maneira muito efetiva bases de apoio em favor de algum candidato nacional ou partido, exatamente por estarem inseridos no cotidiano municipal, ou por assim dizer, no dia-a-dia da comunidade. Nesse quadro, elaborar uma radiografia da capilaridade municipal dos principais partidos do Brasil pode ser entendido como um recurso de compreensão importante de performance partidária e da viabilidade, por exemplo, de candidatos à presidência da república.


Nesse levantamento será apresentada uma radiografia da capilaridade municipal dos partidos no Brasil. Apesar da base de dados se referir às eleições municipais de 2016, a realização de um recorte interpretativo que interponha o resultado eleitoral de 2018 e as possibilidades de rearranjos eleitorais para 2022, permite empreender uma compreensão mais ampla e consistente sobre a conjuntura atual.


De modo objetivo, esse levantamento contou com as fontes de dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de modo a abarcar o total das 5.570 prefeituras em todo o território nacional. O recorte analítico ficou centrado nos seguintes partidos: PT (Partido dos Trabalhadores), PSL (Partido Social Liberal), PP (Progressistas), MDB (Movimento Democrático Brasileiro), PSD (Partido Social Democrático), PL (Partido Liberal), PSB (Partido Socialista Brasileiro), PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira), DEM (Democratas) e PDT (Partido Democrático Trabalhista). O critério de escolha desses dez partidos está centrado em duas dimensões: a) o tamanho da bancada na Câmara Federal na atual legislatura; b) o número de municípios comandados por essas legendas desde 2016. Dessa forma, poderá ser viabilizada uma interpretação que dê destaque aos partidos que vêm tendo maior impacto eleitoral entre 2016 e 2020, além de ser possível elencar, de maneira hipotética, quais são os possíveis cenários de expansão para as eleições em 2022. Vejamos:


RADIOGRAFIA DO PT (PARTIDO DOS TRABALHADORES):




Apesar da forte rejeição que o partido vem sofrendo nos últimos anos e a perda de um número significativo de prefeituras em 2016 quando em comparação com o ano de 2012¹, o PT conseguiu sustentar uma performance consistente nas eleições de 2018, formando uma das maiores bancadas da Câmara Federal. A capilaridade municipal do partido se alastra mais significativamente na região Nordeste e em alguns pontos da região Sul. Os Estados de maior destaque na performance petista são: Minas Gerais (41 municípios), Piauí (37 municípios), Bahia (37 municípios) e Rio Grande do Sul (38 municípios). Em termos estratégicos e tomando como base a referida radiografia, parece imperativo que o partido deverá centrar esforços para recompor sua base de apoio, nos próximos pleitos, em colégios eleitorais como São Paulo, Rio de Janeiro e na região Centro-Oeste como um todo.



RADIOGRAFIA DO PSDB (Partido da Social Democracia do Brasil):




Na eleição presidencial de 2018, o PSDB saiu como grande perdedor da disputa, pois mesmo tendo firmado uma coligação numerosa com os partidos do centro político, a performance eleitoral foi muito aquém, conquistando apenas 4,76% dos votos válidos². Entretanto, em termos de capilaridade municipal, o PSDB sustentou em 2016 um número muito consistente de municipalidades (793 ao todo), o que pode dar novo fôlego em termos competitivos para a eleição deste ano e a de 2022. Os Estados de maior destaque na performance peessedebista são: São Paulo (162 municípios), Minas Gerais (132 municípios), Paraná (66 municípios) e Goiás (77 municípios).


RADIOGRAFIA DO PSL (Partido Social Liberal):




Apesar de ter se destacado na eleição de 2018 como o partido que venceu a corrida presidencial e ter sido um dos que elegeu maior bancada na Câmara Federal, o PSL não apresenta um histórico eleitoral expressivo. Evidentemente, parte significativa desse atual sucesso se deve ao fenômeno explosivo do bolsonarismo, que angariou de uma só vez um eleitorado muito grande em 2018. Mas dado o rompimento de Jair Bolsonaro com a legenda³, surge a incógnita de como a performance irá se comportar em 2020. Concentrada principalmente na Bahia (15 municípios) em 2016, o PSL tende a ampliar sua base eleitoral pelos municípios em todo o país neste ano, mesmo com o desligamento de Bolsonaro com a legenda.



RADIOGRAFIA DO DEM (Democratas):




Em âmbito nacional, o DEM está numa fase de ampliação de sua influência, pois conseguiu ocupar os principais postos de poder na República brasileira entre 2016 e o corrente ano. Se destaca nesse cenário a ocupação da presidência da Câmara Federal com Rodrigo Maia (DEM/RJ - 2019/2020) e a presidência do Senado Federal na figura de Davi Alcolumbre (DEM/AP – 2019/2020). A capilaridade municipal do partido está hoje concentrada nos seguintes Estados: Minas Gerais (53 municípios), São Paulo (50 municípios), Bahia (34 municípios), Paraná (20 municípios) e Pará (15 municípios). Dada a ampliação significativa do capital político da legenda, a eleição de 2020 parece tender a se traduzir numa maior ampliação da base eleitoral dos Democratas.


RADIOGRAFIA DO MDB (Movimento Democrático Brasileiro):




Apesar da fraca performance para a presidência da república em 2018, onde conseguiu apenas 1,20% dos votos válidos², o MDB possui uma estrutura partidária muito robusta e é a legenda que domina o maior número de municípios (1.028 ao todo) em todo o país. Entre os Estados em que há maior predomínio emedebista, pode-se destacar: Minas Gerais (163 municípios), São Paulo (81 municípios), Rio Grande do Sul (127 municípios), Santa Catarina (96 municípios), Paraná (76 municípios), Bahia (46 municípios), Goiás (40 municípios) e Pará (42 municípios).


RADIOGRAFIA DO PSD (Partido Social Democrático):




O PSD tem ampliado gradualmente seu raio de influência política, pois conseguiu eleger dois governadores estaduais em 2018, além de comandar, desde o ano de 2016, 539 municípios em todo o país. Entre os Estados de maior predomínio pessedista, pode-se destacar: Bahia (80 municípios), Santa Catarina (60 municípios), São Paulo (59 municípios), Minas Gerais (55 municípios) e Rio Grande do Norte (51 municípios).



RADIOGRAFIA DO PDT (Partido Democrático Trabalhista)




O PDT conseguiu a terceira colocação na eleição presidencial de 2018, angariando 12,47% dos votos válidos², apesar de possuir uma estrutura partidária de tamanho médio. Atualmente comanda 334 municípios concentrados, principalmente, nas regiões Nordeste e Sul. Os Estados que mais se destacam na contagem do nível de capilaridade pedetista são: Rio Grande do Sul (78 municípios), Ceará (51 municípios) e Minas Gerais (28 municípios). A tendência é a de ampliação do raio de influência do referido partido em razão das articulações que estão sendo feitas juntamente com o PSB, REDE e PV*.


RADIOGRAFIA DO PSB (Partido Socialista Brasileiro)



Depois de decidir por não realizar coligação formal com nenhum partido nas eleições presidenciais de 2018 para poder consolidar um acordo com o PT nas eleições estaduais daquele ano**, o PSB parece alterar sua postura de apoio no presente ano, evitando, em certa medida, um contato mais incisivo com o Lulopetismo. De forma objetiva, atualmente comanda 414 municípios concentrados, principalmente, nas regiões Nordeste e Sudeste. Os Estados que mais se destacam na contagem do nível de capilaridade pessebista são: Pernambuco (68 municípios), Paraíba (53 municípios), Minas Gerais (47 municípios), São Paulo (41 municípios) e Piauí (33 municípios). A tendência é a de ampliação do raio de influência do partido em razão das novas articulações que estão sendo feitas juntamente com o PDT, REDE e PV*.


RADIOGRAFIA DO PP (Progressistas):




O PP não obteve performance expressiva na eleição presidencial de 2018 quando integrou a chapa encabeçada por Geraldo Alckmin (PSDB/SP)². Apesar disso, o Progressistas conseguiu em 2016 o comando de 495 municipalidades. Uma característica muito visível da capilaridade do referido partido está em sua concentração na região Sul. Os Estados que apresentam maior contagem sob domínio do Progressistas são: Rio Grande do Sul (143 municípios), Minas Gerais (55 municípios), Bahia (54 municípios) e Santa Catarina (44 municípios). No que se refere a um poder de ampliação de sua influência, deverá pesar estrategicamente como melhor uniformizar sua distribuição nas outras regiões do país.


RADIOGRAFIA DO PL (Partido Liberal):




Assim como o Progressistas, o PL não alcançou expressiva performance na eleição presidencial de 2018, quando apoiou a chapa encabeçada por Geraldo Alckmin (PSDB/SP)². Ainda assim, o partido conseguiu em 2016 o comando de 295 municípios que estão distribuídos de maneira bastante uniforme pelo país. Vale dar destaque aos seguintes Estados: Minas Gerais (60 municípios), São Paulo (30 municípios), Pernambuco (18 municípios) e Bahia (18 municípios).


CONCLUSÃO:


Do conjunto de dados apresentados, é possível constatar que a ideia de capilaridade municipal pode representar um componente estratégico, do ponto de vista eleitoral, bastante importante para os partidos em franca disputa no cenário político brasileiro. Em alguns casos, a concentração do domínio em uma única região do país deverá ser considerado como um fator limitador do poder de capilaridade partidária, por outro lado, alguns partidos contarão com o domínio municipal como ferramenta estratégica que lhe permitirá ter fôlego nas novas disputas eleitorais que virão, ou ainda, algumas legendas poderão reformular seu arco de alianças, o que pode impactar os arranjos políticos em nível nacional.


O ponto nevrálgico neste levantamento está, finalmente, em compreender a importância política que os municípios, na forma do domínio da administração municipal, podem exercer no xadrez do poder em dimensão mais ampla. Os prefeitos e vereadores são a ponta de lança do jogo eleitoral, são os indivíduos que materializam as bases do jogo político brasileiro, por isso é de vital importância compreender sua disposição atual no tabuleiro político.



REFERÊNCIAS:

¹http://g1.globo.com/politica/eleicoes/2016/blog/eleicao-2016-em-numeros/post/em-4-anos-pt-perde-mais-da-metade-das-prefeituras.html

²https://politica.estadao.com.br/eleicoes/2018/cobertura-votacao-apuracao/primeiro-turno

³https://exame.abril.com.br/brasil/bolsonaro-assina-desfiliacao-do-psl/

*https://epoca.globo.com/guilherme-amado/psb-pdt-rede-pv-negociam-alianca-pra-eleicoes-de-prefeito-24068353

**https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2018/noticia/2018/08/01/pt-decide-apoiar-candidatos-do-psb-aos-governos-de-amazonas-amapa-paraiba-e-pernambuco.ghtml

_____________________

Arthur Ives

Integrante da Metapolítica, bacharel e mestre em Sociologia pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), atualmente é doutorando em Sociologia Política por essa mesma instituição. Atua no monitoramento e na formulação de estratégias de atuação junto ao Poder Legislativo.

86 visualizações
whatsapp_contratar.png