O "tempo da política" na era das mídias sociais

Atualizado: Mar 4


Diante de um Brasil amplamente conhecido, de maneira até caricata, por sua diversidade cultural, como é possível conceber uma compreensão da “política” centrada apenas nos eixos do ato do voto, na campanha eleitoral, nas instituições formais do Estado e na figura do ator político? Evidentemente tais categorias são importantes eixos interpretativos que compreendem uma literatura clássica do ponto de vista da Ciência Política e permitem notabilizar com certa segurança as dinâmicas eleitorais que são hoje amplamente operadas. Entretanto, essa mesma margem de segurança interpretativa impõe à compreensão das dinâmicas eleitorais uma camisa de força, um imobilismo intelectual que incide num campo temático, por ora, saturado e aparentemente incapaz de abarcar inventivamente as novas dinâmicas eleitorais que afloram em meio à nova era da popularização das mídias sociais.


Nesse quadro, renovo o questionamento: até que ponto a noção clássica de política é capaz de interpretar efetivamente a complexidade da vida social brasileira, sua diversidade de perspectivas e a influência cada vez mais crescente das mídias sociais no cotidiano político? Essa provocação preliminar nos permite lançar aqui reflexivamente três proposições: a) a ideia de que através de um exercício de antropológico e reflexivo, será possível ampliar as fronteiras interpretativas de novas modalidades de como a política pode ser operada; b) a noção de que a centralidade que as mídias sociais angariaram nos últimos tempos possui influência substantiva na ampliação das novas modalidades de dinâmicas eleitorais; c) a percepção de que simplificações inférteis e homogeneizantes das dinâmicas políticas devem ser rompidas através da perspectiva de que mais valem os processos de sociabilidade envolvidos na consolidação dessas dinâmicas.


Evidentemente esse texto não possui qualquer pretensão em esgotar a temática elencada, a ideia geral está apenas em suscitar uma breve reflexão que tenha por pano de fundo a possibilidade de recolocação do papel da sociologia e da ciência política em dar fundamento às apreensões possíveis das dinâmicas eleitorais nascentes e modernas; ou ainda, em dar amparo à noção de que as categorias de compreensão da política não devem se sobre-exceder ao próprio conteúdo da realidade social. Nesse sentido, vale inicialmente elencar alguns pontos que dizem respeito ao papel simplificador das categorias sociológicas e, de modo subsequente, elencar algumas reflexões do ponto de vista da Antropologia Política para enriquecer o debate.


O sociólogo alemão Niklas Luhmann (1927-1988), conhecido por sua contribuição contemporânea à Teoria dos Sistemas, explica que a “moral” em determinada sociedade exerce um papel de dupla contingência, pois retraduz, por exemplo, a complexidade do mundo da vida em certo/errado, bom/mal e sagrado/profano (LUHMANN apud JOAS e KNÖBL, 2017). Essa ambivalência, para além de seu papel de ressignificação dos ambientes e de simplificação das complexidades do mundo social, também exerce um papel totalizante, pois estipula de maneira muito rígida onde determinada dinâmica social deve ser enquadrada conceitualmente. As categorias sociológicas, quando irrefletidas do ponto de vista da apreensão do mundo social, podem exercer esse mesmo papel totalizante. A literatura clássica em relação à política das micro localidades, os municípios e povoados no interior do Brasil, por exemplo, sempre reivindicaram elementos interpretativos rígidos, fixos, com forte teor de adjetivação, como “mandonismo”, “coronelismo” e “faccionalismo” para explicar as dinâmicas de reciprocidade política, sempre alegando concomitantemente uma espécie de singularidade que só aquela região é capaz de realizar, ignorando o conteúdo dessas práticas em si e sua pertinência para compreensão de contextos mais amplos. Todavia, ao se operacionalizar interpretações de adjetivação como essas, é ignorada toda uma pluralidade de negociações e rearranjos políticos que viabilizam dinâmicas eleitorais absolutamente plurais. E esse deveria ser o foco de apreensão da sociologia e da ciência política enquanto instrumentos de intepretação da realidade política e social.


Na clássica publicação “Antropologia, Voto e Representação Política”, organizado pelos antropólogos Moacir Palmeira e Marcio Goldman (1996), o ponto de vista da “política local” é colocado como ponto focal. Tais autores partem da premissa de que as dinâmicas eleitorais fazem parte de um processo que envolve uma série de dimensões da vida social, portanto, não compondo apenas o bloco estanque de uma categoria sociológica abstrata, mas abarcando também os modos como a sociabilidade local é efetivada.


Nesses termos, categorias que podem ser utilizadas como elementos conceituais tais como partidos, sindicatos, instituições governamentais, as figuras dos atores políticos, a campanha eleitoral e o ato do voto, passam a ser integradas numa perspectiva mais ampla, em que se considera toda uma rede de relações, rearranjos políticos, lealdades, vinculações familiares, compromissos pessoais, etc. Esse conjunto de fatores se traduzem na ideia de que o período eleitoral é apenas o endpoint de um processo em que arranjos, rearranjos e compromissos políticos foram firmados ao longo do tempo. Portanto, a noção de “tempo da política”, muito utilizado pelos referidos autores, sintetiza a perspectiva de que a eleição e o ato do voto não são apenas o momento de concretização dos compromissos firmados ou de escolha de um político ou partido, mas também, são a tradução de um processo de comprometimento significativo e profundo entre atores sociais.


Mas finalmente, como esse conjunto de reflexões pode ser pertinente para uma interpretação moderna do impacto das mídias sociais? Meu argumento se vale da ideia de que tais ferramentas digitais são capazes de singularizar dinâmicas locais e globais. Melhor explicando, as redes sociais possuem hoje um valor de desterritorialização muito marcado, sobretudo em contexto político, pois viabilizam a disseminação unificada de narrativas e são capazes de consolidar o engajamento dos atores sociais diariamente. Nesse sentido, se Palmeira e Goldman (1996) se debruçaram sobre dinâmicas locais para dar fundamento a uma maior pluralidade explicativa dos arranjos políticos, as mídias sociais, por sua vez, podem ser compreendidas enquanto fonte de inovação dessas possibilidades, pois permite que as formas de sociabilidade sejam ainda mais intensificadas dado que as limitações espaciais e temporais são por ela dissipadas.


Nessas condições, o desafio é o de dar conteúdo prático e metodológico para a captação consistente dessas formas de sociabilidade política. Como bem alerta Bourdieu (2003), o pesquisador social não deve confundir a noção de rigor metodológico com a de rigidez, e isso influi constituir uma premissa de que o melhor caminho para a compreensão das dinâmicas políticas e eleitorais se constitui na consideração do poder que há na pluralidade de perfil de atores sociais envolvidos, na pluralidade de narrativas, nas diferentes modalidades laços de sociabilidade e práticas de engajamento, sejam essas concretas ou virtuais. De modo mais direto, metodologias como a etnografia digital, o mapeamento das redes de relação digital e a compilação de dados biográficos de figuras-chave no processo político (em que se dê enfoque a suas redes de parentela e amizade), permitem tangenciar de maneira consistente uma compreensão mais ampla das dinâmicas políticas e eleitorais, para além das clássicas modalidades de interpretação aqui já referenciadas ou dos aspectos institucionais e formais que compreendem uma noção popular do que é a “política”.


Acredito, enfim, que a proposição de uma agenda de pesquisa dessa natureza seja fundamental para uma compreensão consistente das novas dinâmicas políticas e eleitorais que têm sido formuladas no contexto de forte popularização de mídias sociais. Das eleições estadunidenses de 2008, que notabilizaram o início de uma utilização massiva das redes sociais para a viabilidade eleitoral de um candidato, naquela ocasião, Barack Obama, até as últimas eleições presidenciais no Brasil em 2018, em que se teve a vitória do presidente Jair Bolsonaro, as mídias sociais têm mostrado sua centralidade cada vez maior em termos de engajamento político e eleitoral. A quebra de barreiras físicas e temporais por essas ferramentas digitais compreende novas modalidades de estabelecimento do “tempo da política”, cuja captação e interpretação deve ser realizada de maneira consistente e rigorosa, mas sem que com isso se ignore o valor intrínseco dos processos de sociabilidade que lhe compreendem.


A Metapolítica, como poucas empresas do ramo de consultoria política no Brasil, não apenas está atenta a esses novos desafios, como também tem proposto de modo plural e criativo a utilização da inteligência de dados na formulação das melhores estratégias de atuação no âmbito político.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:


BOURDIEU, Pierre. “A Miséria do Mundo”. Vozes, Rio de Janeiro, 2003.


GIDDENS, Anthony. “As Consequências da Modernidade”. UNESP, São Paulo, 1991.


JOAS, Hans; KNÖBL, Wolfgang. “Teoria Social: Vinte Lições Introdutórias”. VOZES, Rio de Janeiro, ed. 1, pp. 656, 2017.


PALMEIRA, Moacir; GOLDMAN, Márcio (orgs.). “Antropologia, voto e representação política”. Rio de Janeiro, Contra Capa, pp. 235, 1996.


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Arthur Ives

Integrante da Metapolítica, bacharel e mestre em Sociologia pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), atualmente é doutorando em Sociologia Política por essa mesma instituição. Atua no monitoramento e na formulação de estratégias de atuação junto ao Poder Legislativo.

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